Na Cadência do Samba

 

Arranco de Varsóvia usa com maestria acelerador e breque em seu terceiro CD
por Tárik de Souza Jornal do Brasil [ 27-06-2005 ]

Inspirado nos pioneiros grupos vocais que modernizaram a MPB - do Bando da Lua, que acompanhava Carmen Miranda, aos Anjos do Inferno e ao Quatro Ases e Um Coringa -, o quinteto Arranco de Varsóvia surgiu em 1997 já dizendo ao que veio no nome do disco: Quem é de sambar. A este sucedeu Samba de Cartola, no ano seguinte. Reformulado no triângulo feminino, o Arranco só manteve desde a inauguração a ala masculina, integrada por Paulo Malaguti (piano) e Muri Costa (violão), ambos responsáveis pelos arranjos. Andréa Dutra, Cacala Carvalho e Elisa Queirós entraram com as saídas de Soraya Ravenle, Eveline Hecker e Rita Peixoto. Mas o tema central se reafirma no adiado terceiro título: Na cadência do samba (Dubas).


O Arranco volta a mesclar pagodeiros (dos bons) recentes, como Arlindo Cruz, Adilson Bispo, Sombrinha, Zeca Pagodinho e Jorge Aragão, e baluartes da tradição, segmento que inclui uma rara parceria de D. Ivone Lara e Caetano Veloso (Força da imaginação). E mais dois acepipes inéditos do quituteiro Dorival Caymmi, que ainda empresta a voz ao fundo a um deles, E o que me importa se eu tiro o domingo pra sambar?. Mais uma de suas impagáveis odes ao ócio.

E não é raspa do tacho, que Caymmi só canta após muita decantação. Sob intenso requebro rítmico desliza a letra: ''Trabalhador eu sou/ e tenho os documentos aqui pra provar/ mas eu tiro o domingo pra vadiar''. O final é de mestre-escola: ''e aqui termino saudando as mulatas de todo o Brasil/ o que me obriga a uma rima forçada com céu de anil''. Touché! A outra inédita dele, Falou com a moça?, também é sestrosa. ''Cutucou a moça?/ não, não/ mexeu com a moça?/ não, não/ então como é que você diz/ que toda moça lhe namora?'', questionam os versos, enquanto o balanço come solto e os uníssonos vocais dissonam, alfinetando o ouvido conformista. Ainda no terreno do humor rola (de rir) o partido Badêjo ou badéjo, de Ronaldo Barcellos e Charlles André, crivado de rimas em êjo e éjo e aproximações (beijo, queijo, brejo, Tejo, varejo etc).

O pop Leoni, que agora engata parceria com os índios Ashaninka, também exibe uma porção sambista na sinuosa Três dias de ventania, com Paulo Malaguti. Utilizando a técnica dos solos, em contraste com os ensembles que dão mais mobilidade à articulação vocal, o Arranco sai-se bem tanto em temas mais melodiosos, como Força da imaginação, quanto nos picotados velozes, a exemplo do único choro, o clássico 1 x 0 (Um a zero), de Pixinguinha e Benedito Lacerda, letrado por Nelson Angelo.

Os arranjos procuram fugir do previsível, como na introdução afro para Eu vou botar teu nome na macumba, sucesso de Zeca Pagodinho e Dudu Nobre. Ou na participação do congolês Ray Lema numa introdução em lingala para o atabacado Não quero mais (Adilson Bispo/ Zé Roberto). Na veloz Sai dessa (Nathan Marques/ Ana Terra) ou na bola dançada de pé em pé em Futebol (Naná Vanconcelos), o Arranco mostra que sabe usar com maestria o acelerador e o breque na cadência de seu revitalizado samba.
 
Os novos sambas de Caymmi
por Hugo Sukman O Globo [ 29-06-2005 ]

O telefone de Muri Costa toca. É Danilo Caymmi:— Papai lembrou de umas músicas que fez há muito tempo, dá para você vir para cá ajudar a tirar as harmonias?

Mesmo para Muri — violonista que acompanhou o velho Dorival por 11 anos, foi aluno e discípulo de Dori, tocou na banda de Nana, é amigo de Danilo desde a adolescência, é como se ele próprio fosse um quarto filho — um chamado desses emocionou.

— Cheguei lá em Copacabana e eram três inéditas: um foxtrote, uma marchinha de carnaval e um samba, que a Stellinha Caymmi ( neta que então escrevia a biografia de Dorival ) achou fragmentos de letra — diz Muri. — De repente o Dorival lembrou de outro samba, “O que me importa se eu tiro o domingo pra sambar?”, e enquanto ele lembrava e eu tirava no violão, ele virou para mim e disse: “Isso não tem cara de conjunto vocal?”.

Tinha cara de conjunto vocal. Tanto que “O que me importa se eu tiro o domingo pra sambar?” tornou-se um dos dois sambas inéditos de Caymmi que o Arranco de Varsóvia, quinteto vocal especializado em samba que Muri integra, lança em seu novo disco, “Na cadência do samba” (Dubas). O outro, “Falou com a moça?”, também tem jeitão de conjunto vocal, o velho Bando da Lua, que tanto cantou Caymmi, com e sem Carmen Miranda, certamente gravaria.

— É curioso, são dois sambas que Dorival compôs nos anos 30 e ambos têm perguntas no título, como tantos outros sambas dele daquela época, tipo “O que é que a baiana tem?”, “Você já foi à Bahia?” — diz Muri.

Samba demorou mais de 60 anos

Os dois sambas estão no nível habitual de Dorival Caymmi: são suingados, formalmente perfeitos, malandros, sacanas. “Falou com a moça?” é a história de um sujeito metido a conquistador, tão ao sabor dos anos 30. “Falou com a moça?/Não, não/Cutucou a moça?/Não, não/Mexeu com a moça/Não, não/Então como agora você diz/Que toda moça lhe namora?”, provoca a letra, que tem música sincopada, nos moldes de um “A vizinha do lado”.

“O que me importa se eu tiro o domingo para sambar?” é mais legal ainda. E, provavelmente, é a música de Caymmi que mais tempo demorou a ser feita, talvez recorde mundial levando-se em conta a proverbial lentidão perfeccionista do compositor baiano. Iniciado em 1930, o samba só foi concluído na tarde de 1999 em que Muri foi à casa de Caymmi, ou seja, 69 anos depois de iniciado, batendo longe o recorde anterior de uns trinta e poucos anos de “João Valentão”.

— Dorival esqueceu dois versos, então teve que escrever novos versos na hora — testemunhou Muri.

Nos novos versos, o esperto Dorival aproveitou para auto-ironizar sua injustificada fama de indolente: “Trabalhador eu sou/E tenho os documentos aqui para provar”, diz o personagem do samba, sempre justificando o fato de que, aconteça o que acontecer, “eu tiro o domingo pra vadiar”.

— Tem outro detalhe interessante. Naquela época, os compositores gostavam muito de exaltar o Brasil de forma ufanista, era a época do samba-exaltação, e isso incomodava um pouco Dorival, que não achava necessário demonstrar o amor pelo país daquela maneira exagerada. Então ele acaba o samba com aquela ironia: “E aqui termino saudando as mulatas de todo o Brasil/O que me obriga a uma rima forçada com céu de anil” — analisa Muri.

Os dois Caymmis inéditos são a principal atração do novo disco do Arranco. Mas não a única. O grupo tem nova formação — além dos fundadores Muri e Paulo Malaguti, as três cantoras são novas, Andréa Dutra, Cacala Carvalho, Elisa Queirós, escolhidas em testes — e, depois de gravar um disco só de Cartola, volta ao formato do primeiro CD: misturar sambas da geração Cacique de Ramos, como Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho, à incursão no samba de compositores de MPB, como Caetano Veloso (“Força da imaginação”, parceria com Dona Ivone Lara), e até de rock como Leoni (“Três dias de ventania”, com Malaguti).

Como Muri Costa gravou a sessão em que ajudou Caymmi a lembrar das músicas esquecidas, ele conseguiu registrar a frágil voz nonagenária de Dorival ensinando os versos de “O que me importa se eu tiro o domingo para sambar?”. Trata-se do mais recente registro vocal de Dorival, que abre a gravação do Arranco devidamente autorizada por seus três filhos músicos.

— Considero a chance de, com o grupo, lançar esses dois sambas do Dorival, um coroamento da minha relação com os Caymmi — diz Muri, que é amigo de Danilo desde o início dos anos 70, quando formou o hoje mítico conjunto A Barca do Sol, foi o violão da banda de Nana por quatro anos nos anos 80, estudou violão com Dori que, quando foi morar nos Estados Unidos, passou o bastão de violonista oficial de Dorival para o aluno. — Eu me tornei brother mesmo do Algodão.

Por óbvias incompatibilidade de gênero, já que o Arranco de Varsóvia é um grupo dedicado radicalmente ao samba, outros dois Caymmis inéditos dos anos 30 continuam a dar bobeira por aí: o foxtrote “Iracema”, sobre uma fã de cinema impressionada com os primeiros filmes falados, e a marchinha de carnaval “Lucila”, dois nomes de mulher para enriquecer o repertório mulherístico do autor de “Dora”, “Marina”, “Juliana” etc.
 
Samba moderno em expansão
por Pedro Alexandre Sanches Carta Capital [ 06-07-2005 ]

O samba bom trançado em sofisticadas elaborações vocais é o brinquedo do grupo carioca Arranco de Varsóvia, que lança agora seu terceiro álbum, Na Cadência do Samba. Segue a saga de parear clássicos do samba (como o hino futebolístico quase oficial que dá nome ao CD, de autoria de Luiz Bandeira) com pagodes de estirpe (tipo Eu Vou Botar Teu Nome na Macumba, de Zeca Pagodinho e Dudu Nobre), mas desta vez os objetivos vão além.

O quinteto (com três vozes femininas e duas masculinas) agora se apóia no trunfo de trazer, feito raríssimo, duas composições inéditas do patrono Dorival Caymmi – em gravação evidentemente artesanal, o mestre comparece em pessoa, proferindo alguns versos da pândega E o Que me Importa se Eu Tiro o Domingo pra Sambar?

Craques do samba à parte, o que faz toda a diferença do Arranco de Varsóvia é o projeto de modernizar e ampliar o arco de influência do samba – nesse intento, cabem samba do artista pop (ex-Kid Abelha) Leoni (Três Dias de Ventania), samba eternizado por Elis Regina (Sai Dessa) e,no melhor momento do disco, pós-samba do percussionista pernambucano Nana Vasconcelos (Futebol). E, na distensão promovida pelo Arranco, o samba vai devagarzinho perdendo preconceitos.
Cadência Sedutora
por Mauro Ferreira O Dia (RJ) [ 24-06-2005 ]

As duas inéditas de Dorival Caymmi (E o que me Importa se Eu Tiro o Domingo pra Sambar?, com a voz do autor, e Falou com a Moça?) valorizam este terceiro CD do grupo carioca, mas a cadência mais sedutora está na ótima harmonização vocal do quinteto – esperto na quebrada baiana de Badêjo ou Badéjo e até lírico na bela Força da Imaginação. Já Três Dias de Ventania introduz seu co-autor Leoni no samba. Dez!
As harmonias do quinteto são irresistíveis.
por Adalto Alves Diário da Manhã (GO) [ 06-07-2005 ]

Na Cadência do Samba foi lançado sete anos depois de Samba de Cartola. Tomara que o Arranco não demore mais sete anos para gravar um disco. O grupo vocal mergulha de cabeça no samba. As harmonias do quinteto são irresistíveis. O Arranco atualiza MPB-4 e Quarteto em Cy. Sem dar a menor pinta de que renova qualquer coisa. Eles se divertem e os ouvintes também.