Samba de Cartola

 

Poeta da Mangueira ganha tratamento luxuoso do Arranco.
por Antonio Carlos MiguelO Globo


O impacto dos primeiros discos gravados por Cartola, no início dos anos 70, foi similar à redescoberta da obra de Noel Rosa, nos anos 50, através das versões de Aracy de Almeida. Agora, 18 anos depois da morte do mestre da Mangueira, seus sambas continuam emocionantes. Algo que pode ser comprovado no recente e ótimo disco “Samba de Cartola” (selo Dubas), no qual o quinteto carioca Arranco (ex de Varsóvia) regrava Cartola sem pedir fórmulas.
Na verdade, eles fazem algo que poderia ser rotulado como um samba de câmara, baseados num instrumental básico mas muito eficiente – o piano de Paulo Malaguti e o violão de Muri Costa, que também cantam ao lado das vozes de Rita Peixoto, Eveline Hecker e Soraya Ravenle.
Com tal tratamento, o Arranco realça as belas melodias de Cartola, em rebuscadas harmonizações, e também ilumina a poesia de um dos fundadores da Mangueira, que não faria fio com seus versos em qualquer boa antologia do gênero.
Dois convidados especiais participaram do disco: outro mangueirense ilustre, Nelson Sargento se junta ao Arranco em “O Sol Nascerá”; enquanto a cantora Beth Carvalho, que desde os anos 70 canta o mestre, participa de “As Rosas não Falam”. Mas Arranco também se sai sem participações especiais, recriando clássicos como “Amor Proibido”, “Divina Dama”, “Tive Sim” e “Quem me vê sorrindo” ou músicas menos conhecidas como “A Vila emudeceu” (escrita por Cartola em homenagem a Noel Rosa) e Dê-me graças, senhora.”

O prazer do velho e bom samba
por Paulo César Vasconcelos Jornal do Brasil – RJ


Não dá para ficar sem bater o pé, completar algumas letras ou simplesmente aplaudir ao fim de cada música. O show que o conjunto Arranco (ex-Varsóvia) apresenta no Hipódromo Up, na Gávea, para o lançamento do CD Arranco-Samba de Cartola é uma viagem pela vida de um porta por quem até Carlos Drummond de Andrade tinha admiração.
Neste agradável passeio pela obra deste compositor que sempre torceu pelo Fluminense, foi guardador de carros e teve um restaurante considerado parada obrigatória de quem tinha atração por caldo verde e samba – o Zicartola- tem músicas conhecidas, mas algumas que ouvidos e olhos e ouvidos interessados na carreira de Cartola não conhecem. Isso torna o show mais fascinante e agradável de ver.
É ótimo assistir a um espetáculo de samba em que não tem negro com cabelo pintado de louro com vozinha de criança e nem loura com requebrado de negra. Canta-se samba com alma e vale a pena ficar sentado diante daquelas três cantoras afinadas que não estão preocupadas em mostrar requebro – embora sejam brejeiras- e sim um jeito suave de cantar samba. Emociona a interpretação de Eveline Hecker em Divina Dama e encantam as interpretações de Rita Peixoto e Soraya Ravenle.
Os arranjos de Paulo Malagutti, ex Céu da Boca, e Muri Costa, ex Barca do Sol, dão ainda mais emoção ao espetáculo. Em tempos de pasteurização e letras para débeis mentais descobrir que um conjunto formado por jovens da classe média tem interesse num gênio da música brasileira dá alento.
Ao término do show, a sensação que fica é a de que o samba não morreu. Em três anos de vida, o Arranco tem mostrado isso. Surgiu pela comum atração que todos os seus integrantes têm por um tipo de música chamada SAMBA. O Arranco mostra isso naquele pequeno espaço do Hipódromo Up. Até o local tem um certo a ver com o espírito do conjunto. Dá ao show um tom mais intimista, acolhedor.
Vale a pena sair de casa, passar pela boêmia do Baixo Gávea e subir as escadarias do Hipódromo Up. È o tipo do show que quem não assiste fica depois a se lamentar. Por isso ao ler que o Arranco está fazendo um show só com músicas de Cartola não fique em casa. Vença a preguiça e vá até à Rua Macedo Soares, atrás da praça Santos Dummont. Ta certo que você nunca ouviu falar desse grupo e pouco conhece o autor dessa crítica, mas não é necessário ser especialista em vinhos para diferenciar um sangue de boi de um bordeaux. O mesmo se aplica ao show em cartaz no Hipódromo Up. Quando é bom só de ouvir, você já sabe. E isso acontece!

Cartola
por Hildegard Angel O Globo 

O Arranco é um grupo de samba formado por cantores; cinco ótimos. Não é aquela história de grupo vocal que apaga as habilidades pessoais de cada um. Ao contrário, quando um sola, os outros fazem uma bela “cama” de sons. A “cozinha” também é genial. Violão de sete cordas, cuíca chorando, surdo...O último disco traz só Cartola. Quem é de samba que se habilite. Selo Dubas.

 

Ouro dos mais puros.
por Mauro Ferreira O Dia 

O bom Arranco festeja os 90 anos de Cartola com primor. O grupo vocal reapresenta com frescor a obra do compositor. O Sol Nascerá ganha canja de Nelson Sargento. As Rosas Não Falam tem Beth Carvalho. E o melhor é que a seleção revela um Cartola pouco conhecido, mas igualmente genial. Ouça Quem me vê sorrindo, A Vila emudeceu e Consideração. Ouro dos mais puros.


Samba de Cartola
por Lena Frias Jornal do Brasil 

Entre as homenagens aos 90 anos de Cartola, a melhor é , de fato, gravar toda a obra do artista em todas as linguagens e sotaques possíveis, multiplicando-se no gosto. Esse Samba de Cartola é bom não só pela qualidade interpretativa do quinteto como pelo instrumental, que valoriza a sofisticação harmônica e melódica do mestre. Imperdível.

 

Arranco regrava Cartola
por José Teles Jornal do Commercio [ 18-07-1998 ]

Se é que ainda havia, qualquer dúvida sobre a excelência harmônica e melódica da música de Angenor Oliveira, o Cartola, é dirimida de vez no CD Samba de Cartola (Dubas/Warner), com o grupo Carioca Arranco (ex-Arranco de Varsóvia). Entre um punhado de clássicos do mestre, o Arranco selecionou alguns sambas menos conhecidos que podem levar os desavisados a creditá-los a autores supostamente mais sofisticados, um Chico Buarque, ou um Francis Hime. A Vila Emudeceu, feita logo depois da morte de Noel Rosa (de quem foi parceiro), lembra os bons momentos de outro grande do samba, Paulinho da Viola.
O Arranco (Eveline Hecker, voz, Murí Costa, violão, cavaquinho e voz, Paulo Malaguti, piano e voz, Rita Peixoto, voz, Soraya Ravenle, voz) compartilha de poucas semelhanças com outros intérpretes de Cartola. As 13 faixas do CD equilibram-se entre sambas manjados e preciosidades fisgadas do fundo do baú do compositor mangueirense (e algumas de suas parcerias, com Heitor dos Prazeres, Bide, Elton Medeiros). Um tratamento à base do piano Malaguti tira As Rosas Não Falam do lugar comum. Arranjo camerístico para Divina Dama mostra facetas nova deste samba de andamento e seqüencia de acordes pouco comuns à época de sua feitura (1933).
Embora não traga inovações nas harmonizações, o grupo dá continuidade a uma faceta tradicional da música brasileira, a dos conjuntos vocais, que há muito não se renovava. Por fim mais não menos importante, Arranco tem ótimos cantores, que atuam como solistas em algumas interpretações irretocáveis. Eveline Hecker, em Tive Sim, ou Rita Peixoto, em Ao Amanhecer, por exemplo. O Samba de Cartola é uma homenagem do quinteto ao compositor (que faria este ano 90 anos), e começa com uma oportuna participação especial do contemporâneo Nelson Sargento.